sábado, 15 de janeiro de 2011

Tonio Kröger, p. 71-85

"Andou pelo campo, sobre prados, pela solidão, e logo o faial, entendendo-se pelas colinas da vizinhança, envolvia-o. Sentava-se no musgo, encostado a uma árvore, de maneira a divisar, entre os troncos, uma faixa do mar que soava como se, ao longe, tábuas caissem umas sobre as outras. Gritos de gralhas nas copas das árvores, roucos, solitários e perdidos... Segurava um livro sobre os joelhos, mas não lia uma linha. Desfrutava um esquecimento profundo, um flutuar desprendido sobre o espaço e o tempo, e só de vez em quando era como se o seu coração fosse transpassado por uma dor, um pesar curto, agudo, de saudade ou arrependimento, sobre cuja designação e procedência ele se sentia demasiado indolente e absorto para indagar." (MANN, 1971, p. 71).


"Meu pai, sabe, era de um temperamento nórdico: considerado, minucioso, correto, por puritanismo inclinado à melancolia; minha mãe, de indistinto sangue exótico, bonita, sensual, ingênua, ao mesmo tempo displicente e apaixonada e de um desmazelo impulsivo.

Sem duvida alguma, foi esta uma mistura que encerrava extraordinárias possibilidades e extraordinários perigos.

O resultado foi este: um burguês que se perdeu na arte, um boêmio que sentia saudades da boa educação, um com a consciência pesada. Pois a minha consciência burguesa é que me faz ver em toda arte, todo extraordinário e todo gênio algo profundamente ambíguo, profundamente difamado, profundamente duvidoso, o que me enche desta amorosa fraqueza para o simples, singelo e agradável anormal, o não-genial e decente.

Estou entre dois mundos; não me sinto à vontade em nenhum dos dois e por isso tenho um pouco de dificuldade. Vocês, artistas, me chamam de burguês, e os burgueses sentem-se tentados a prender-me... não sei qual dos dois me magoa mais. Os burgueses são bobos. Vocês, adoradores da beleza, porém, que me dizem ser eu fleumático e sem saudades, deviam imaginar um dom artístico tão profundo e tão do princípio e do destino, que nenhuma saudade lhe pareça ser mais doce e digna de ser sentida do que aquela pelas delícias da trivialidade.

Admiro os soberbos e frios que se aventuram nos caminhos das grandes, das demoníacas belezas, e desprezam o 'homem' - mas não os invejo. Pois se alguma coisa é capaz de fazer um literato um poeta, então é este meu amor burguês pela humanidade, pela vida e pelas coisas comuns. Todo calor, toda bondade, todo humor vem dele, e quer-me parecer que seja ele aquele amor do qual está escrito que alguém poderia falar com língua humana angelical e, no entanto, sem ele nada mais ser que um bronze soante e guizo sonoro.

O que fiz é nada, não muito, quase nada. Farei coisa melhor, Lisavieta - isto é uma promessa. Enquanto escrevo, o mar murmura até aqui e eu fecho os olhos. Olho para um mundo inato, quimérico, que quer ser ordenado e culto; olho para um formigar de sombras com aspecto humano que acenam para mim, a fim de que as esconjure e liberte: sombras trágicas e cômicas e algumas as duas coisas ao mesmo tempo - e a estas sou muito dedicado. Mas o meu amor mais sentido e secreto pertence aos louros e de olhos azuis aos vivos claros, aos felizes, gentis e comuns.

Não repreenda este amor, Lisavieta; Ele é bom e fértil. Contém saudade e uma inveja melancólica, um pouquinho de desprezo e uma felicidade de absoluta pureza." (MANN, 1971, p. 83-5).


MANN, T. Tonio Kröger - Morte em Veneza. 1. ed. São Paulo, SP: Editora Abril, 1971.

Tonio Kröger, p. 45-6

"- Veja, o literato, no fundo, não compreende que a vida pode continuar a viver, que não se envergonha disto, depois de, afinal, ter sido expressada e 'terminada'. Mas veja só, apesar de toda libertação, continua pecando sem parar, através da literatura; pois toda ação é pecado aos olhos do espírito. Cheguei ao termo, Lisavieta. Ouça-me. Amo a vida - isto é uma confissão. Aceite-a e guarde-a - eu nunca a fiz a ninguém. Disseram, escreveram mesmo e fizeram imprimir que odeio, ou temo, ou desprezo, ou detesto a vida. Gostei de ouvi-lo, lisonjeou-me; mas nem por isso é menos falso. Amo a vida...

Você sorri, Lisavieta, e sei a respeito de quê. Mas eu lhe imploro, não tome por literatura o que diz aí! Não pense em César Bórgia ou alguma filosofia ébria, que o ergueu sobre um pedestal! Nada significa para mim, a este César Bórgia não lhe dou o mínimo valor e jamais compreenderei como se pode venerar como ideal o extraordinário e o demoníaco. Não, a 'vida', como se apresenta em eterno contraste ao espírito e à arte - não como visão de grandeza sangrenta e beleza selvagem, não como o extraordinário se apresenta a nós, extraordinários; porém, a normalidade, o decoro, a amabilidade é o reino de nossas saudades, é a vida na sua tentadora banalidade! Longe está de ser um artista, minha querida, cuja última e mais profunda exaltação é o requinte, o excêntrico, o satânico, que não conhece a saudade pelo inofensivo, simples e vivo, por um pouco de amizade, dedicação, intimidade e felicidade humana - a saudade secreta e consumidora, Lisavieta, pelas delícias do trivial!" (MANN, 1971, p. 45-6).


"- É absurdo amar-se a vida e no entanto empenhar todos os artifícios em puxá-la para o nosso lado, conquistá-la para as sutilezas e melancolias e toda a doentia nobreza da literatura. O reino da arte cresce e o da saúde e inocência drecresce sobre a terra. O que ainda sobra disto devia ser conservado com o maior zêlo, e não se deve seduzir para a poesia aqueles que preferem ler livros sobre cavalos, com ilustrações! Por que afinal - que espetáculo seria mais lastimável do que o da vida quando tenta a arte?" (MANN, 1971, p. 46).


MANN, T. Tonio Kröger - Morte em Veneza. 1. ed. São Paulo, SP: Editora Abril, 1971.

Tonio Kröger, p. 43-5

"- Olhe para mim. Não estou com bom aspecto, não lhe parece? Um pouco velho, as linhas do rosto marcadas, um pouco cansado, não é verdade? Então, para voltar ao 'reconhecimento', assim se poderia imaginar um homem que, de nascença crente, meigo, benévolo e um pouco sentimental, seria simplesmente aniquilado pela clarividência psicológica. Não se deixar vencer pela tristeza do mundo; observar, perceber, mesmo a maior angústia, e estar de bom humor, sentindo-se absolutamente elevado sobre a abominável invenção do ser - sim, certamente! No entanto, apesar de todos os regozijos da expressão, a coisa toma conta de você. Tudo compreender quer dizer tudo perdoar? Não sei ao certo. Existe algo que eu chamo de nojo do conhecimento, Lisavieta. O estado no qual basta a um homem penetrar uma coisa para se sentir enojado a ponto de querer morrer (e sem nenhuma disposição para perdoar) é o caso de Hamlet, do dinamarquês, desse literato típico. Ele sabia o que era isto: ser destinado ao conhecimento sem ter nascido para isso. Divisar, ainda através do véu de lágrimas do sentimento, reconhecer, perceber, observar e, sorrindo, ter que por de lado o que observou, ainda no momento em que as mãos se entrelaçam, os lábios se encontram, onde o olhar humano, cego pela sensação, se quebra - é infame, Lisavieta, é vil, é revoltante... mas de que adianta revoltar-se? Um outro lado da coisa, não menos delicado, é o fastio, a indiferença e o cansaço irônico contra toda a verdade; é um fato que em nenhuma parte do mundo sucede ser tão calado e sem esperança quanto no círculo de gente de espírito que já está calejado. Todo o conhecimento é velho e monótono. Diga uma verdade, pela conquista e posse da qual você sente uma espécie de alegria juvenil, e sua ilustração ordinária será respondida por um curtíssimo desprendimento de ar pelo nariz... Ah! sim, a literatura cansa, Lisavieta! Numa sociedade humana pode acontecer que - isto lhe garanto -, de tanto ceticismo e abstinência de opinião, se seja considerado tolo, quando se é nada mais que orgulhoso e sem coragem... Isto, quanto ao 'reconhecimento'. Porém, quanto à 'palavra', talvez aí se trate menos de uma libertação do que de uma conservação e congelação do sentimento. Falando sério, há uma circuntância gélida e revoltante presumida com esta conclusão rápida e supérflua do sentimento. Se o seu coração está cheio, se se sente demasiadamente emocionada com um acontecimento doce e elevado, nada mais simples! Vá a um literato e tudo será resolvido no menos espaço de tempo. Ele analisará e formulará o seu assunto, dar-lhe-á um nome, expressá-lo-á e fará com que lhe diga algo. Vai resolver e tornar tudo indiferente para você, por todo o tempo, e não aceitará agradecimentos. Você, porém, vai para casa aliviada, refrescada e esclarecida, e vai cismar o que havia no assunto, ainda há pouco, que podia, num tão doce tumulto, perturbá-la. E quer defender seriamente este frio charlatão? O que é expresso, assim reza o seu credo, está acabado. Se o mundo todo for expressado, então está acabado, libertado, posto de lado... Muito bem. Porém, eu não sou niilista..." (MANN, 1971, p. 43-5).


MANN, T. Tonio Kröger - Morte em Veneza. 1. ed. São Paulo, SP: Editora Abril, 1971.

Tonio Kröger, p. 38-9

"- Também a mim a primavera põe nervoso, também a mim a encantadora trivialidade dos anseios e sentimentos que ela desperta me põe confuso; só que não consigo repreendê-la e desprezá-la por isso; pois acontece que me envergonho dela, envergonho-me de sua pura naturalidade e de sua triunfante mocidade. Não sei se devo invejar Adalberto ou menos – desprezá-lo, porque não entende nada disso... Trabalha-se mal na primavera, é certo, e por quê? Porque se sente. E porque é um ignorante aquele que acredita que o criador pode sentir. Todo verdadeiro e sincero artista sorri da ingenuidade deste engano charlatão; melancólico, talvez, mas sorri. Pois aquilo que se diz nunca deve ser o essencial, mas tão somente o material, indiferente em princípio, de que se compõe a criação estética numa leve e serena superioridade. Se der demasiado valor àquilo que tem a dizer, se o seu coração bater com calor demasiado por isso, pode estar certa de um completo fiasco. Você torna-se sentimental, algo de pesado, de sério-desajeitado, sem ironia, desgovernado, sem tempero, monótono, banal se forma sob suas mãos, e o fim é nada mais que indiferença por parte das pessoas, nada mais que desilusão e lamentação de sua parte... Pois Lisavieta: o sentimento, o cálido e cordial sentimento é sempre banal e sem utilidade; artísticos são somente nossas irritações e os frios êxtases de nosso corrompido e artificioso sistema nervoso. É preciso que se seja algo fora da humanidade ou desumano, que esteja para a humanidade numa relação estranhamente distante e indiferente, para ser-se capaz de interpretar ou mesmo sentir-se tentado a isso, interpretar para apresentar de modo efetivo e com gosto. O dom para o estilo, forma e expressão já pressupõe esta fria e descontente relação para com a humanidade. Pois o sentimento são e forte - isto está confirmado - não tem gosto. Morre o artista quando se torna homem e começa a sentir." (MANN, 1971, p. 38-9).


MANN, T. Tonio Kröger - Morte em Veneza. 1. ed. São Paulo, SP: Editora Abril, 1971.

Tonio Kröger, p. 31-2

"Ele seguia o caminho que devia seguir, um pouco negligente e sem ritmo, assobiando, com a cabeça inclinada para o lado, olhando para a distância, e, quando errava o caminho, isto acontecia porque para alguns seres não existem caminhos certos. Quando lhe perguntavam o que pensava ser, dava informações contraditórias, pois que costumava dizer (e já tomara nota disto) que trazia em si possibilidades para mil existências, tendo no íntimo o conhecimento de, no fundo, serem tudo coisas impossíveis..." (MANN, 1971, p. 31).


"Ele se entregou completamente ao poder que lhe parecia o mais elevado deste mundo, para os serviços aos quais se sentia destinado e que lhe prometiam grandeza e honra, ao poder do espírito e da palavra, que, sorrindo, reina sobre o mundo instintivo e mudo. Com seu jovem entusiasmo dedicou-se a ele, e este retribuiu-lhe com tudo o que tinha para presentear, dele tomando em pagamento, implacávelmente, tudo o que costuma exigir.

Aguçou o olhar, fazendo-o compenetrar-se das grandes palavras que enchem o peito do homem, descobriu-lhe as almas dos homens e a sua própria, deu-lhe clarividência e mostrou-lhe o fim que está atrás das palavras e atos. Mas o que ele via era isto: comicidade e miséria - comicidade e miséria.

Então veio a solidão, com o tormento e o orgulho da cognição, porque não se sentia bem no círculo dos inocentes com a alma alegre e obscura e estes, por sua vez, sentiam-se perturbados pelo sinal na sua testa. Mas a alegria na palavra e nas formas se tornou cada vez mais doce para ele, pois costumava dizer (e já tomara nota disto) que o conhecimento da alma somente nos faria infalívelmente tristonhos, se o contentamento da expressão não nos conservasse acordados e alegres..." (MANN, 1971, p. 32).


MANN, T. Tonio Kröger - Morte em Veneza. 1. ed. São Paulo, SP: Editora Abril, 1971.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Introdução: Tonio Kröger II

Tonio Kröger: o Mischling como artista prototípico


"Mann expressou suas idéias sobre o papel do artista na sociedade burguesa em Tonio Kröger (1903), a estória de um rapaz de origem racial mestiça que sofre o conflito de ser um burguês artisticamente dotado. Como observei na primeira parte do livro, há muito de autobiográfico nesta novela, de sua locação no Norte da Alemanha de da origem familiar de Tonio até a posição de compromisso que ele alcança com as imposições e limitações da sociedade burguesa. A aparência física e temperamento de Tonio refletem a visão que Mann tinha de si mesmo: de sua mãe exótica que ele herdou a face morena, a propensão ao devaneio e a melancolia que o fazem ter uma relação privilegiada com o intelecto. Estes 'dotes' o distinguem e o marcam com relação aos loiros, àqueles que vivem o mundo iluminado da sociedade normal devotados à ação e ao comportamento extrovertido.

Tonio Kröger pode ser interpretado como uma tentativa de solução da contradição entre o artista e a sociedade burguesa. Esta tensão foi deixada irresolvida pelo romantismo e atingiu seu pico no final do século XIX com o esteticismo. O artista nunca estivera tão distante de sua classe e a idéia do l'art pour l'art era parte de um contexto político que negava qualquer possibilidade de crítica da sociedade.

A novela expõe as dúvidas de Mann sobre sua identidade como alemão e burguês. Os intelectuais alemães compartilhavam com sua classe original - a Bildungsbürgertum - o discurso de 'identidade nacional' que estabeleceu suas identidades diante da aristocracia decadente do século XIX. O problema do artista foi que logo que ele passou a ser associado com grupos marginais e não com a nação, e sua marginalidade era justificada biologicamente por vários cientistas. O típico alemão era o burguês, enquanto o artista era visto como um dissidente intelectual. Mann, em seu tratado político de 1918, chegaria a observar:

Pois o caráter alemão e o burguês são o mesmo; se 'espírito' for mesmo de origem burguesa, então o espírito alemão é burguês de uma forma especial. [...] Dizer que em Schopenhauer e Wagner alguém se encontra na esfera burguesa, que alguém recebe uma educação burguesa através deles, parece contrário ao bom senso, pois é difícil conectar o conceito de natureza burguesa [Bürgerlichkeit] com aquele do gênio (MANN, 1922: 80)." (MISKOLCI, 2003, p. 104-5).


MISKOLCI, R. Thomas Mann, o artista mestiço. 1. ed. São Paulo, SP: Annablume, Fapesp, 2003.

Introdução: Tonio Kröger I

Tonio Kröger


"Em sua novela autobiográfica, Mann desenvolveu e aprofundou o tema do artista de origem mestiça que abordara de forma menos enfática em Os Buddenbrook. Tonio Kröger (1903) expõe de forma mais clara as reflexões do jovem autor sobre a identidade do artista. O título inicial da obra era Literatura, o que esclarece de antemão que Mann, ao referir-se à arte em geral, costuma se referir às letras.

Esteticamente, Tonio Kröger é uma obra imperfeita. A consciência que o autor possuía deste fato foi revelada através das formas como a denominou, inicialmente como 'novela curta', mais tarde como 'balada em prosa' e, por fim, simplesmente de 'relato'. Na época em que o escreveu, Mann estava mais preocupado com a mensagem do que com a forma, o que atesta sua afirmação de que sua obra curta era 'uma declaração de amor à vida que, por seu caráter claro e direto, chega às vezes a deixar a esfera da arte' (MANN apud REICH-RANICKI, 1989: 88).

O autor afirmaria diversas vezes durante sua vida que os artistas são mais ingênuos, irresponsáveis e banais do que pensam os críticos, os quais pressupõem que eles são muito mais conscientes do que são em realidade. Com certeza tal afirmação se aplica a muitos escritores, mas indubitavelmente não se pode aplicá-la a Thomas Mann, e menos ainda como o criador de Tonio Kröger. Marcel Reich-Ranicki chegou a qualificar a novela como obra de intenção clara e abertamente programática, a qual não encontra paralelo em nenhum de seus contemporâneos e exerceria influência duradoura na literatura universal.²

2. Kafka tinha predileção pelo Tonio Kröger. A influência de Thomas Mann na obra do escritor de Praga se faz notar até seus últimos anos de vida; de forma clara em Um artista da fome. Hermann Hesse também deixa transparecer a influência desta obra de Mann em Demian (1919), romance de formação em que se utiliza da mesma metáfora do chiaro-scuro para colocar em relevo seu protagonista, também associado à estirpe de Caim. Curiosamente, o influenciado termina por influenciar e Mann inspirou-se no ocultismo de Hesse para estruturar A montanha mágica (1924) como uma iniciação alquímica." (MISKOLCI, 2003, p. 38).


"Com sua novela, Mann ataca a legitimidade de outras concepções do artista, considerando-as negativas quer do ponto de vista da sociedade quer do que considerava o 'verdadeiro' artista, o mediador entre a vida e o conhecimento. Tonio Kröger serviu para fortificar sua interpretação da vocação burguesa como a única forma de prover disciplina e equilíbrio àquele sempre tentado pelo niilismo, pela séduction de la mort à qual sucumbiria se não conseguisse encontrar seu caminho de retorno para a sociedade." (MISKOLCI, 2003, p. 43).


MISKOLCI, R. Thomas Mann, o artista mestiço. 1. ed. São Paulo, SP: Annablume, Fapesp, 2003.

A Montanha Mágica, p. 39-42

"Este (Hans Castorp) se criou num clima abominável, entre o vento e bruma. Ia crescendo, se assim se pode dizer, dentro de um impermeável amarelo. Contudo sentia-se perfeitamente bem." (MANN, 1952, p. 39).


"Como se vê, empenhamo-nos em anotar tudo quanto possa prevenir o espírito do leitor a favor de Hans Castorp. Mas julgamo-lo sem exagero, e não o apresentamos nem melhor nem pior do que era. Hans Castorp não era nem um gênio nem um imbecil, e a razão de evitarmos, para sua qualificação, o termo 'medíocre' reside em circunstâncias que nada têm que ver com sua inteligência e quase nada com a sua singela personalidade; fazemo-lo devido ao respeito que temos pelo seu destino, ao qual nos sentimos inclinados a atribuir certa significação ultra-individual. Seu cérebro satisfazia as exigências do curso científico do colégio, sem que tivesse de recorrer a excessivos esforços - que decerto não teria realizado em nenhuma ocasião e por nenhum objetivo; menos por medo de se prejudicar do que por não ver nenhum motivo para empreendê-los; ou melhor: por não ver nenhum motivo absoluto. É precisamente por isso que o não chamamos de medíocre, já que ele percebia, desta ou daquela forma, a ausência de tais motivos." (MANN, 1952, p. 42).


"O homem não vive somente a sua vida individual; consciente ou inconscientemente participa também da vida da sua época e dos seus contemporâneos. Até mesmo uma pessoa inclinada a julgar absolutas e naturais as bases gerais e ultrapessoais da sua existência, e que da idéia de criticá-las permaneça tão distante quanto o bom Hans Castorp - até uma pessoa assim pode facilmente sentir o seu bem-estar moral um tanto diminuído pelos defeitos inerentes a essas bases. O indivíduo pode visar a numerosos objetivos pessoais, finalidades, esperanças, perspectivas, que lhe dêem o impulso para grandes esforços e elevadas atividades; mas, quando o elemento impessoal que o rodeia, quando o próprio tempo, não obstante toda a agitação exterior, carece no fundo de esperanças e perspectivas, quando se lhe revela como desesperador, desorientado e falto de saída, e responde com um silêncio vazio à pergunta que se faz, a pergunta pelo sentido supremo, ultrapessoal e absoluto, de toda atividade e de todo esforço - então se tornará inevitável, justamente entre as naturezas mais retas, o efeito paralisador desse estado de coisas, e esse efeito será capaz de ir além do domínio da alma e da moral, e de afetar a própria parte física e orgânica do indivíduo. para um homem se dispor a empreender uma obra que ultrapasse a medida das absolutas necessidades, sem que a época saiba uma resposta satisfatória à pergunta 'Para quê?', é indispensável ou um isolamento moral e uma independência, como raras vezes se encontram e têm um quê de heróico, ou então uma vitalidade muito robusta. Hans Castorp não possuía nem uma nem outra dessas qualidades, e portanto deve ser considerado medíocre, posto que num sentido inteiramente decoroso." (MANN, 1952, p. 42-3).


MANN, T. A Montanha Mágica. 1. ed. Trad. Herbert Caro. São Paulo, SP: Círculo do Livro, 1952.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A Montanha Mágica, p. 36-7

"Analisadas e resumidas, essas impressões seriam pouco mais ou menos as seguintes: a morte tinha dois aspectos, um piedoso, significativo, de melancólica beleza, quer dizer, um aspecto religioso, e ao mesmo tempo tinha outro, absolutamente diverso e até mesmo oposto, um aspecto muito físico, bem material, que era impossível qualificar propriamente de belo, significativo, piedoso, sequer triste. A natureza solene e religiosa expressava-se no suntuoso ataúde do defunto, na magnificência das flores e no ramo de palmeira, que, como se sabe, simbolizavam a paz celestial; expressava-se além disso, e ainda mais nitidamente, no cruxifixo entre os dedos exangues de quem outrora era o avô, bem como no Cristo abençoador, de Thorwaldsen, que se achava à cabeceira do féretro, e nos dois candelabros que se erguiam de ambos os lados e nessa ocasião haviam assumido um caráter igualmente eclesiástico. Todas essas disposições encontravam evidentemente o seu sentido preciso e próprio na idéia de que o avô se unira para sempre com sua verdadeira e genuína figura. Mas, além dessa razão de ser, existia - como o pequeno Hans Castorp bem notava, ainda que não se desse conta disso em palavras - mais uma outra, uma finalidade mais profana, a manifestar-se em tudo isso, principalmente naquela multidão de flores, e entre elas em especial nas tuberosas espalhadas por toda parte: cabia-lhes disfarçar, fazer esquecer e não admitir ao limiar da consciência o segundo aspecto da morte, que não era nem belo nem realmente triste, mas, a bem dizer, quase indecente e de um caráter baixo e carnal.

Era em virtude desse segundo aspecto que o avô defunto se afigurava tão estranho, que no fundo nem parecia o avô, senão um boneco de cera, de tamanho natural, que a Morte pusera em seu lugar, e ao qual agora se dedicavam todas essas pompas piedosas e reverentes. Quem jazia ali, ou melhor, aquilo que ali se achava estendido, não era portanto o verdadeiro avô; não passava de um invólucro, que - Hans Castorp sabia-o muito bem - não era de cera, mas de sua própria matéria; apenas de matéria, e precisamente nisso residia o indecente e a ausência de tristeza; aquilo era tão pouco triste como são as coisas que dizem respeito ao corpo e só a ele. O pequeno Hans Castorp contemplava essa matéria lisa, cor de cera, de uma consistência caseosa, de que estava feita aquela figura morta de tamanho natural com o rosto e as mãos do ex-avô. Uma mosca acabava de pousar na testa imóvel e começava a mexer a probóscide. O velho Fiete espantou-a cautelosamente, evitando tocar a testa; ao fazê-lo exibia uma fisionomia reservada e pudica, como se não devesse nem quisesse saber do ato que praticava; pudor que sem dúvida se devia ao fato de ser o avô, no atual estado, corpo e nada mais. Mas a mosca deu um vôo circular e aterrissou em seguida nos dedos do avô, perto da cruz de marfim. Enquanto isso sucedia, Hans Castorp percebeu, mais distintamente do que antes, aquela emanação leve, mas de uma persistência singular, e que não lhe era estranha. Por vergonhoso que isso parecesse, lembrava-lhe ela um companheiro de escola, afetado de um mal desagradável e por isso evitado pelos colegas. E Hans Castorp compreendeu que o aroma das tuberosas tinha por objetivo abafar essa emanação, o que não conseguia, apesar da linda exuberância e austeridade." (MANN, 1952, p. 36-7).


MANN, T. A Montanha Mágica. 1. ed. Trad. Herbert Caro. São Paulo, SP: Círculo do Livro, 1952.

A Montanha Mágica, p. 6-22

"No entanto, não será o caráter de antiguidade de uma história tanto mais profundo, perfeito e lendário, quanto mais próxima do presente ela se passar? Além disso, poderia ser que também sob outros aspectos a nossa história, pela sua natureza íntima, tenha isto e aquilo em comum com a lenda." (MANN, 1952, p. 6).


"Dois dias de viagem apartam um homem - e especialmente um jovem que ainda não criou raízes firmes na vida - do seu mundo cotidiano, de tudo quanto ele costuma chamar seus deveres, interesses, cuidados e projetos; apartam-no muito mais do que esse jovem imaginava enquanto um fiacre o levava à estação. O espaço que, girando e fugindo, se roja de permeio entre ele e seu lugar de origem, revela forças que geralmente se julgam privilégio do tempo; produz de hora em hora novas metamorfoses íntimas, muito parecidas com aquelas que o tempo origina, mas em certo sentido mais intensas ainda. Tal qual o tempo, o espaço gera o olvido; porém o faz desligando o indivíduo das suas relações e pondo-o num estado livre, primitivo; chega até mesmo a transformar, num só golpe, um pedante ou um burguesote numa espécie de vagabundo. Dizem que o tempo é como o rio Letes; mas também o ar de paragens longínquas representa uma poção semelhante, e seu efeito, conquanto menos radical, não deixa de ser mais rápido." (MANN, 1952, p. 8).


"No meio dessas conversas, Joachim se entristeceu ao pensar no seu infortúnio.

- Pois é, aqui estamos e nos divertimos - disse com uma expressão dolorosa, ainda interrompido, de vez em vez, pelas trepidações de seu diafragma -, e no entanto não posso prever, nem de longe, quando poderei sair daqui. Pois, quando Behrens me diz: 'Mais meio ano', sei que preciso preparar-me para um prazo maior. É bem duro isso. Você deve compreender como é triste para mim. Já me haviam aceitado no exército, e no mês que vem poderia fazer exames para oficial. Agora vivo aqui vadiando, com o termômetro na boca, conto os erros dessa ignorantona da Sra. Stöhr e perco meu tempo. Um ano tem tanta importância na nossa idade, traz tantas alterações e tantos progressos na vida lá de baixo! E eu obrigado a estagnar aqui como uma poça d'água, sim, senhor, como um charco apodrecido. Não há exagero nenhum nessa comparação." (MANN, 1952, p. 21-2).


MANN, T. A Montanha Mágica. 1. ed. Trad. Herbert Caro. São Paulo, SP: Círculo do Livro, 1952.

Introdução: A Montanha Mágica

"- O que devo eu então dizer sobre o próprio livro (A Montanha Mágica) e ainda por cima, como deve ser lido? O começo é uma exigência muito arrogante, a dizer que se deva lê-lo duas vezes. É claro que essa exigência é retirada imediatamente para o caso de que na primeira vez se tenha ficado entediado. A arte não deve ser nenhum trabalho escolar nem dificuldade, nenhuma ocupação contre coeur, mas sim deve alegrar, entreter e animar e aquele sobre o qual uma obra não exerce esse efeito então este deve deixar a obra de lado e voltar-se para outra. Mas quem chegou uma vez até o final com a “Montanha Mágica” então eu aconselho a lê-la mais uma vez, pois seu feitio particular, seu caráter como composição traz consigo que o prazer do leitor aumentará e se aprofundará da segunda vez, - como se deve já conhecer uma música para poder gozá-la de acordo. Não casualmente utilizei a palavra composição, a qual se costuma reservar à música. A música sempre influenciou meu trabalho formando fortemente meu estilo.

Os poetas são, na maioria das vezes, outra coisa no fundo, eles são pintores ou gráficos ou escultores ou arquitetos deslocados ou outra coisa qualquer. Quanto a mim, eu pertenço aos músicos entre os poetas. O romance sempre foi para mim uma sinfonia, um trabalho de contraponto, um tecido de temas no qual as idéias têm o papel de motivos musicais. Ocasionalmente aludiu-se - eu mesmo o fiz também - à influência que a arte de Richard Wagner exerceu na minha produção. Não quero de modo nenhum negar esta influência e eu segui particularmente Wagner também no emprego dos leitmotives que eu transferi para a narração e não assim como Tolstói e Zola e também ainda no meu próprio romance de juventude, “Os Buddenbrook”, de um modo meramente naturalista caracterizante, assim por dizer de modo mecânico, mas sim na maneira simbólica da música. Isto eu experimentei pela primeira vez em “Tonio Kröger”. A técnica que eu exercitei lá está empregada na “Montanha Mágica” num limite muito mais abrangente, da maneira mais complicada e que perpassa tudo. E a isso se refere a minha exigência arrogante de ler duas vezes a “Montanha Mágica”. Podemos reconhecer e apreciar adequadamente o complexo de relações entre música e idéias que ela forma quando já conhecemos sua temática e somos capazes de interpretar não só para trás, mas também para diante a palavra-chave que alude a um símbolo.

Com isso eu volto a aludir a algo que já toquei, a saber, ao mistério do tempo com o qual o romance lida de diversas maneiras. Ele é um romance de tempo num duplo sentido: uma vez historicamente, tentando esboçar o quadro interior de uma época, o tempo do pré-guerra europeu, depois porém porque o puro tempo mesmo é o assunto dele, que ele trata não apenas como experiência de seu herói, mas sim também através de si mesma. O livro é sobre aquilo mesmo que ele narra; e descrevendo o encantamento hermético fora do tempo de seu herói, ambiciona por seu meio artístico a abolição do tempo e através da tentativa de emprestar ao mundo universal da música e das idéias que ele abarca, a cada momento uma presença plena e produzir um mágico nunc stans. Mas para trazer à plena congruência sua ambição de ser sempre ao mesmo tempo conteúdo e forma, ser e aparência, e ser sempre aquilo do qual se trata e fala, esta ambição vai mais longe. Ela se refere ainda a um outro tema fundamental, o tema da elevação, à qual é dado o epíteto alquímico. Os senhores se lembram: o jovem Hans Castorp é um herói simples, um filhinho de família hamburguesa e engenheiro comum. No febril hermetismo da montanha mágica essa matéria simples passa por uma elevação que o torna capaz de aventuras morais, espirituais e sensuais, das quais nunca teria sonhado no mundo que é sempre designado ironicamente como planície. Sua história é a história de uma elevação, mas ela é elevação também em si mesma, como história e narração. Ela trabalha com os expedientes do romance realista, mas não é, ela sempre ultrapassa o real elevando-o simbolicamente e tornando-o transparente para o espiritual e o ideal. Já no tratamento de suas figuras ela o faz que para o sentimento dos leitores todas são mais do que aparentam; elas são expoentes, representantes e mensageiros de regiões espirituais, princípios e mundos. Espero que mesmo assim não sejam sombras e alegorias andantes. Ao contrário, eu estou despreocupado pela experiência de que os leitores experimentam esses personagens, Joachim, Clawdia Chauchat, Peeperkorn, Settembrini como pessoas reais, das quais o leitor se lembra como pessoas com as quais travou realmente conhecimento.

O livro cresceu espacial e espiritualmente no caminho da elevação muito além do que o autor originalmente planejou com ele. A short story tornou-se o volumoso romance de dois tomos - uma desventura que não teria acontecido se a “Montanha Mágica” tivesse permanecido aquilo que muita gente no início via nela e ainda hoje nela vêem: uma sátira à vida do sanatório para tuberculosos. Ela causou a seu tempo não pouca sensação no mundo da medicina, causou nela parcialmente adesão, parcialmente indignação, uma pequena tempestade nos jornais especializados. Mas a crítica da terapia do sanatório é seu primeiro plano, um dos primeiros planos do livro, cuja característica é ter um grande segundo plano. A advertência doutrinária dos riscos morais da cura pelo repouso e de todo o ambiente estranho fica na verdade por conta do senhor Settembrini, o racionalista e humanista retórico que é uma figura entre outras, uma figura humorística-simpática, às vezes também o bocal do autor, mas de maneira alguma o próprio autor. Para este, morte e doença e todas as aventuras macabras pelas quais ele deixa seu herói passar são justamente o meio pedagógico pelo qual se alcança uma imensa elevação e impulso do herói simples para além de sua situação original. Elas são, justamente como meio pedagógico, valorizadas amplamente de modo positivo, mesmo se Hans Castorp no decorrer de sua vivência ultrapassa sua devoção inata diante da morte e compreende uma humanitariedade que não nega e rejeita racionalmente a idéia da morte e todo escuro e misterioso da vida, mas as inclui sem se deixar dominar espiritualmente por ela. O que ele aprende a compreender é que toda saúde mais elevada deve ter passado pelas profundas experiências da doença e da morte, assim como o conhecimento do pecado é uma condição prévia da salvação. “Para a vida”, disse Hans Castorp uma vez para Madame Chauchat, “para a vida há dois caminhos: um é o usual, direto e ajuizado. O outro é mau, ele passa pela morte e este é o caminho genial.” Essa concepção de doença e morte como uma passagem necessária para o saber, para a saúde e para a vida torna a “Montanha Mágica” um romance de iniciação (initiation story).

Eu não inventei essa denominação. A crítica ma deu à mão posteriormente e eu faço uso dela uma vez que eu devo lhes falar sobre a “Montanha Mágica”. Eu me deixo ajudar com prazer pela crítica alheia pois é um erro pensar que o autor mesmo seja o melhor conhecedor e comentador de sua própria obra. Ele é, talvez, enquanto ainda trabalha e está nela. Mas uma obra consumada, que já ficou para trás, se torna cada vez mais algo separado dele, estranho, na qual e sobre a qual outros com o tempo estão muito melhor informados do que ele, de modo que podem recordar-lhe muita coisa que ele esqueceu ou talvez até mesmo nunca tenha sabido claramente. A gente tem, em geral, a necessidade de ser lembrado de si. Não se está de modo algum de posse de si mesmo, nossa autoconsciência é quanto a isto fraca, uma vez que nós de modo algum e nem sempre temos o nosso ser integralmente presente. Apenas em momentos de rara claridade, concentração e visão geral nós temos conhecimento verdadeiro de nós e a modéstia de pessoas notáveis que surpreende muitas vezes, tem seu motivo em boa parte nisso: que elas geralmente sabem pouco sobre si mesmas, não estão conscientes de si mesmas e se sentem, com razão, como pessoas comuns." (MANN, 1939).


Thomas Mann, em uma conferência na Universidade de Princeton, maio de 1939.
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