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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Introdução: Tonio Kröger II

Tonio Kröger: o Mischling como artista prototípico


"Mann expressou suas idéias sobre o papel do artista na sociedade burguesa em Tonio Kröger (1903), a estória de um rapaz de origem racial mestiça que sofre o conflito de ser um burguês artisticamente dotado. Como observei na primeira parte do livro, há muito de autobiográfico nesta novela, de sua locação no Norte da Alemanha de da origem familiar de Tonio até a posição de compromisso que ele alcança com as imposições e limitações da sociedade burguesa. A aparência física e temperamento de Tonio refletem a visão que Mann tinha de si mesmo: de sua mãe exótica que ele herdou a face morena, a propensão ao devaneio e a melancolia que o fazem ter uma relação privilegiada com o intelecto. Estes 'dotes' o distinguem e o marcam com relação aos loiros, àqueles que vivem o mundo iluminado da sociedade normal devotados à ação e ao comportamento extrovertido.

Tonio Kröger pode ser interpretado como uma tentativa de solução da contradição entre o artista e a sociedade burguesa. Esta tensão foi deixada irresolvida pelo romantismo e atingiu seu pico no final do século XIX com o esteticismo. O artista nunca estivera tão distante de sua classe e a idéia do l'art pour l'art era parte de um contexto político que negava qualquer possibilidade de crítica da sociedade.

A novela expõe as dúvidas de Mann sobre sua identidade como alemão e burguês. Os intelectuais alemães compartilhavam com sua classe original - a Bildungsbürgertum - o discurso de 'identidade nacional' que estabeleceu suas identidades diante da aristocracia decadente do século XIX. O problema do artista foi que logo que ele passou a ser associado com grupos marginais e não com a nação, e sua marginalidade era justificada biologicamente por vários cientistas. O típico alemão era o burguês, enquanto o artista era visto como um dissidente intelectual. Mann, em seu tratado político de 1918, chegaria a observar:

Pois o caráter alemão e o burguês são o mesmo; se 'espírito' for mesmo de origem burguesa, então o espírito alemão é burguês de uma forma especial. [...] Dizer que em Schopenhauer e Wagner alguém se encontra na esfera burguesa, que alguém recebe uma educação burguesa através deles, parece contrário ao bom senso, pois é difícil conectar o conceito de natureza burguesa [Bürgerlichkeit] com aquele do gênio (MANN, 1922: 80)." (MISKOLCI, 2003, p. 104-5).


MISKOLCI, R. Thomas Mann, o artista mestiço. 1. ed. São Paulo, SP: Annablume, Fapesp, 2003.

Introdução: Tonio Kröger I

Tonio Kröger


"Em sua novela autobiográfica, Mann desenvolveu e aprofundou o tema do artista de origem mestiça que abordara de forma menos enfática em Os Buddenbrook. Tonio Kröger (1903) expõe de forma mais clara as reflexões do jovem autor sobre a identidade do artista. O título inicial da obra era Literatura, o que esclarece de antemão que Mann, ao referir-se à arte em geral, costuma se referir às letras.

Esteticamente, Tonio Kröger é uma obra imperfeita. A consciência que o autor possuía deste fato foi revelada através das formas como a denominou, inicialmente como 'novela curta', mais tarde como 'balada em prosa' e, por fim, simplesmente de 'relato'. Na época em que o escreveu, Mann estava mais preocupado com a mensagem do que com a forma, o que atesta sua afirmação de que sua obra curta era 'uma declaração de amor à vida que, por seu caráter claro e direto, chega às vezes a deixar a esfera da arte' (MANN apud REICH-RANICKI, 1989: 88).

O autor afirmaria diversas vezes durante sua vida que os artistas são mais ingênuos, irresponsáveis e banais do que pensam os críticos, os quais pressupõem que eles são muito mais conscientes do que são em realidade. Com certeza tal afirmação se aplica a muitos escritores, mas indubitavelmente não se pode aplicá-la a Thomas Mann, e menos ainda como o criador de Tonio Kröger. Marcel Reich-Ranicki chegou a qualificar a novela como obra de intenção clara e abertamente programática, a qual não encontra paralelo em nenhum de seus contemporâneos e exerceria influência duradoura na literatura universal.²

2. Kafka tinha predileção pelo Tonio Kröger. A influência de Thomas Mann na obra do escritor de Praga se faz notar até seus últimos anos de vida; de forma clara em Um artista da fome. Hermann Hesse também deixa transparecer a influência desta obra de Mann em Demian (1919), romance de formação em que se utiliza da mesma metáfora do chiaro-scuro para colocar em relevo seu protagonista, também associado à estirpe de Caim. Curiosamente, o influenciado termina por influenciar e Mann inspirou-se no ocultismo de Hesse para estruturar A montanha mágica (1924) como uma iniciação alquímica." (MISKOLCI, 2003, p. 38).


"Com sua novela, Mann ataca a legitimidade de outras concepções do artista, considerando-as negativas quer do ponto de vista da sociedade quer do que considerava o 'verdadeiro' artista, o mediador entre a vida e o conhecimento. Tonio Kröger serviu para fortificar sua interpretação da vocação burguesa como a única forma de prover disciplina e equilíbrio àquele sempre tentado pelo niilismo, pela séduction de la mort à qual sucumbiria se não conseguisse encontrar seu caminho de retorno para a sociedade." (MISKOLCI, 2003, p. 43).


MISKOLCI, R. Thomas Mann, o artista mestiço. 1. ed. São Paulo, SP: Annablume, Fapesp, 2003.
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